entrevistas

– Mudamos o planeta, e estas mudanças serão permanentemente expressas nas rochas no futuro.

Colin Waters
Grupo de Trabalho sobre o Antropoceno da União Internacional de Ciências Geológicas

Os indícios são cada vez mais visíveis: mudanças climáticas ameaçam regiões costeiras e a biodiversidade em vários lugares; as emissões de dióxido de carbono já mudaram a composição da atmosfera terrestre; vestígios de plástico, alumínio, concreto e outros materiais deixam sua assinatura nas paisagens de todos os continentes. Somos testemunhas do nascer de uma nova época geológica. Ao menos essa é a ideia que muitos geólogos e pesquisadores querem propor à comunidade internacional. Um dos braços da Comissão Estratigráfica Internacional (e, portanto, da União Internacional de Ciências Geológicas), o Grupo de Trabalho sobre o Antropoceno (AWG, na sigla em Inglês), defende que a ação humana tem se tornado uma força geológica comparável aos vulcões – principalmente da década de 1950 em diante.

Para o cientista britânico Colin Waters, secretário do AWG e, “já mudamos o planeta, e estas mudanças serão permanentemente expressas nas rochas no futuro”. Em entrevista por telefone ao Observatório do Amanhã, Waters advogou que entramos no Antropoceno há 70 anos – o termo vem do grego “Anthropos” (homem) e “cenos” (novo). Ele fala como membro do grupo que diz que não estamos mais vivendo no Holoceno, atual época geológica oficial que se iniciou há pouco menos de 12 mil anos.

Professor honorário da Universidade de Leicester, no oeste da Inglaterra, o pesquisador enfatizou que a formalização da “época dos humanos” é importante porque “mostra a extensão do nosso impacto sobre o planeta a ponto de estarmos deixando um legado permanente da nossa existência”. A formalização do termo é objeto de intenso debate na comunidade científica e traz consigo implicações políticas e econômicas. Foi um dos temas em discussão durante o 35º Congresso Geológico Internacional, que acontece a cada quatro anos – o último deles tendo ocorrido na Cidade do Cabo, África do Sul, entre o fim de agosto e início de setembro de 2016.

Museu do Amanhã – Afinal de contas, o que é o Antropoceno?

Colin Waters – Há muitas interpretações sobre o que isto vem a ser. Como geólogos, estamos olhando para mudanças ambientais que aconteceram em intervalos pelos últimos 4,5 bilhões de anos – expressas em rochas. Desde o início do Holoceno, cerca de 11.700 anos atrás, temos vivido em um ambiente bastante estável. Tem havido um clima muito amigável; é o intervalo de tempo no qual prosperamos enquanto espécie e ocupamos um nicho dominante planeta afora.

Mas alguma coisa aconteceu depois disso, provavelmente em meados do século XX, quando toda a escala da nossa influência no planeta mudou radicalmente. E vemos isso por uma infinidade de sinais, sejam por materiais novos como plástico, concreto, cinzas de combustível de usinas de energia ou novos elementos químicos. Produzimos novos poluentes, como o DDT, inseticidas, e, ao mesmo tempo, lançamos uma quantidade imensa de gases de efeito estufa na atmosfera pelo nosso consumo de hidrocarbonetos – e tudo isso mudou a Terra profundamente em um período muito curto de tempo.

Para nós, é isso que o Antropoceno realmente representa – uma mudança física no planeta, que experimentamos mas de que somos causa ao mesmo tempo – e muitas destas mudanças ficarão permanentemente escritas nas rochas, que vão gravar a história do nosso tempo no planeta. Este registro inclui a forma como modificamos a abundância e a distribuição de outras formas de vida no planeta também.

[Leia a entrevista com o geólogo Colin Waters, da Universidade de Leicester e porta voz do grupo de trabalho internacional sobre o Antropoceno, realizada em parceria com dois outros jornalistas do Museu do Amanhã]

– A ciência é parte da nossa vida, assim como a água, o ar e o solo.

József Pálinkás,

Presidente do Fórum Mundial de Ciência

 

No limiar do século passado havia quem acreditasse que a virada do milênio traria um mundo novo. É verdade que trouxe, no entanto novo não é necessariamente melhor. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o planeta possui 7 bilhões de pessoas: 6 bilhões possuem telefones celulares, 2,5 bilhões não possuem saneamento básico onde vivem. Ainda que esses números não sejam absolutos ou não expressem uma relação entre si, eles revelam que há muito a ser feito em prol do desenvolvimento global.

Por essa razão, a comunidade científica internacional está buscando meios de empregar o seu conhecimento na formulação de uma agenda de desenvolvimento supranacional, de modo que a ciência faça parte da construção de sociedades equânimes, que assegurem a qualidade de vida das populações sem exaurir os recursos naturais necessários para as futuras gerações.

O presidente da Academia de Ciências da Hungria e do Fórum Mundial de Ciência József Pálinkás é um desses cientistas que querem mudar o curso atual do desenvolvimento. Na entrevista a seguir, ele, que é físico e já foi ministro da Educação da Hungria, explicou os motivos para a criação do Fórum, como os cientistas podem influenciar a tomada de decisões políticas e econômicas dos países através dele, e a importância da edição brasileira do evento. E, a seu ver, o Fórum Mundial de Ciência aborda questões mais amplas do que o Fórum Mundial Econômico e tem medidas mais concretas do que a RIO+20.

– Como o Fórum Mundial de Ciências se insere entre outros fóruns mundiais existentes, tal como o Fórum Econômico Mundial, no qual empresários e políticos também discutem os desafios globais?

Pálinkás – Eu creio que o Fórum Econômico Mundial, que acontece em Davos, tenha um escopo reduzido. O Fórum de Davos lida apenas com questões econômicas de curto prazo, enquanto o Fórum Mundial de Ciência lida com questões de longo prazo, incluindo as questões econômicas. Afinal, a economia é muito importante. É claro que nós temos que produzir tudo o que necessitamos para viver – desde alimentos até veículos, passando por computadores e tudo mais -, no entanto precisamos nos perguntar até que ponto este tipo de desenvolvimento é sustentável.

Em minha opinião, manter o pensamento de que o crescimento material durará para sempre não é apenas equivocado, é destrutivo. Nós temos que pensar no futuro – muito mais distante do que dois ou três anos apenas – para descobrirmos qual a solução para os problemas que ele trará, sendo que, na realidade, muitos deles já são problemas atuais.

– A edição brasileira do Fórum Mundial de Ciência teve um tema semelhante ao da RIO+20, com a diferença de congregar principalmente cientistas. É possível compará-los?

Os dois eventos possuem temas semelhantes, mas eles são conduzidos de maneira completamente diferentes. A meu ver, a Rio +20 foi uma conferência na qual as lideranças dos países vieram e leram os seus discursos previamente preparados, mas não refletiram verdadeiramente sobre o que disseram uns aos outros. Isso ocorre pelo fato dos países se encontrarem em diferentes estágios de desenvolvimento e também por possuírem ideias diferentes sobre o desenvolvimento em si.

No Fórum Mundial de Ciência, os cientistas veem as questões de uma maneira semelhante. Claro, há diferenças entre a ciência nos EUA, China ou Uganda, mas as opiniões dos cientistas, os seus conhecimentos, atitudes e os interesses estão muito mais próximos do que as opiniões, conhecimentos, atitudes e interesses dos chefes de Estado e primeiros-ministros desses países.

Neste sentido, creio que essa edição do Fórum tenha resultados mais concretos do que a Rio+20, embora pessoas muito influentes tenham participado do evento. No Fórum, os cientistas podem falar com mais força, de forma mais franca e com interesses globais, enquanto os políticos, quando estão em uma conferência como a RIO+20, precisam agir de acordo com o interesse dos seus países.

– E falando francamente a importância da ciência para os desafios globais do século 21 é…

Hoje em dia, a ciência desempenha um papel tão importante nos países desenvolvidos quanto nos locais onde as pessoas vivem em ambiente natural. Eu sempre uso este exemplo: imagine uma cidade grande – ou enorme como o Rio de Janeiro, afinal Budapeste é uma cidade grande, mas não tem as dimensões do Rio. Se não houver energia por duas semanas em uma cidade como essa, milhões de pessoas morrerão. Logo, dependemos enormemente da tecnologia ambiental, ou seja, da aplicação da ciência para a proteção e conservação da natureza e da forma de utilizar os seus recursos, trabalho de engenheiros e cientistas. A ciência tornou-se parte da nossa vida diária. Sem o desenvolvimento permanente da ciência, a humanidade não pode manter o atual nível de desenvolvimento. Se não investirmos na ciência, se não pesquisarmos e não qualificarmos as pessoas, não haverá nenhuma maneira da humanidade se desenvolver. A ciência é parte da nossa vida, assim como a água, ar ou solo. Nós morreremos se a água acabar, mas, em longo prazo, também morreremos se não houver novas respostas científicas ajudando as pessoas a se manterem vivas. [Leia mais na Academia Brasileira de Ciências ou a tradução em inglês]

– Já ouvi “A Finlândia tem 99% de inclusão digital, Coreia do Sul tem mais de 90%, enquanto o Brasil só tem 70%”. Agora, 70% num país de 200 milhões de habitantes e com a nossa enorme extensão territorial é um feito muito grande. A área da Coreia do Sul corresponde a área de Pernambuco, a Finlândia tem uma área maior, mas tem uma população de 4,5 milhões de habitantes. 

– Sergio Rezende

Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação do governo Lula

O progresso da ciência brasileira na última década traz uma sensação otimista. No entanto, este avanço acompanha o ritmo dos demais setores do país, tanto em seus erros como em seus acertos. O Brasil faz pesquisa de ponta, mas possui um enorme déficit educacional; a infraestrutura traz vantagens ao pesquisador quando a concorrência é entre países latino-americanos, mas deixa a desejar na competitividade global; em além disso, as desigualdades regionais em ciência, tecnologia e inovação reproduzem as desigualdades sociais e econômicas do país. Três exemplos a partir dos quais se conclui que o rumo até os novos patamares apresenta obstáculos.

Nesta entrevista, Sergio Rezende, ministro de Ciência e Tecnologia do governo Lula, avalia onde a ciência brasileira avançou e destaca onde é preciso continuar investindo para dar o salto necessário.

– O modelo de Laboratório Nacional, tal como o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, não poderia ser expandido às demais regiões do Brasil, considerando que a sua implementação fora da região Sudeste poderia reduzir os contrastes do desenvolvimento regional da ciência?

Sergio Rezende – As atividades de pesquisa científica são feitas em dois tipos de instituições: nas universidades, principal fonte de geração de conhecimento, cujo papel fundamental é formar pessoal; e nos laboratórios nacionais, ou laboratórios com fins específicos, que são muito disseminados em países desenvolvidos, cujos equipamentos de grande porte não se justificariam em uma universidade ou em um departamento em particular.

Este tipo de laboratório é bastante disseminado nos Estados Unidos e em países da Europa. No Brasil, ele só começou a ser implantado a partir de 1985, com o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas, que, entre outras funções, é utilizado para testar materiais para a indústria. Na época, houve discussão na comunidade científica sobre o país manter este laboratório, pois, na opinião de quem discordava, a sua existência drenaria recursos que fariam falta nas universidades. A Unicamp afirmava sua liderança na área de pesquisa e o LNLS foi o primeiro laboratório nacional do país aberto à comunidade científica, com técnicos disponíveis para apoiar toda a comunidade científica que usasse suas instalações.

Esses laboratórios nacionais não precisam ficar restritos somente às atividades que envolvem grandes máquinas, nem precisam ficar restritos a uma região do país. Ao contrário, é importante que eles aproveitem as potencialidades de cada região e beneficiem mais pesquisadores e empresas. Por exemplo, na Amazônia, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) está bem no centro da região que tem a maior diversidade biológica do mundo, recebendo pesquisadores brasileiros e estrangeiros, com o apoio técnico necessário e o conhecimento acumulado sobre a biodiversidade amazônica. Quando fui ministro de Ciência e Tecnologia, de 2005 a 2010, via a importância deles para a descentralização da atividade científica no país, por isso criamos outros laboratórios: o Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica (Ceitec), sediado em Porto Alegre, onde não havia nenhum laboratório do Ministério de Ciência e Tecnologia, que tem como objetivo formatar e desenvolver circuitos integrados, além de formar pessoal; o Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene), localizado em Recife, cujo bom aparato tecnológico – possui três aparelhos microscópicos de grande precisão – é utilizado por pesquisadores da região. O Cetene é um laboratório regional, mas o aparato tecnológico que possui seria difícil de ser mantido em uma universidade, tal como ocorre com os laboratórios nacionais.

– O déficit educacional em ciência no país continua grande. Como o programa Ciência Sem Fronteiras pode mudar esta realidade, considerando seu efeito no ensino de ciência e na formação profissional decorrentes do programa?

O Ciência Sem Fronteiras é o grande programa de ciência do atual governo. Até a década de 1970, o Brasil enviava muitas pessoas para fazer o doutorado no exterior, porque nós só passamos a ter doutorado aqui no final da década de 60. A partir da década de 1980, o país já possuía um bom número de programas de pós-graduação com doutorado, e alguns deles se ressentiam porque os melhores alunos estudavam no exterior e não ficavam aqui. E o que faz um bom programa não é só ter bons professores – é preciso ter bons alunos. Além disso, aconteceu uma crise econômica que fez com que o dólar valorizasse muito em relação a nossa moeda; com isso, o Brasil foi deixou de mandar pessoas para fora, a ciência brasileira foi se fechando muito em torno de si mesma, a troca de pessoas foi diminuindo.

Em algumas áreas, nós temos necessidade de formar pessoas nos melhores centros do mundo. O Ciência sem Fronteiras aumentou muito esta dinâmica, possibilitando a estudantes e pesquisadores brasileiros irem para o exterior, e estudantes e pesquisadores estrangeiros virem para o Brasil. Uma característica muito importante do programa é que ele está possibilitando esse intercâmbio durante a graduação, o que o diferencia dos programas anteriores que não incluíam estudantes nesta etapa. É de se esperar que isto tenha uma grande repercussão, modificando a mentalidade dos alunos, gerando outra visão de mundo.

É um grande programa, bem executado, e tende a contribuir muito para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia no Brasil. Através dele, mais alunos de graduação irão se interessar em fazer pós-graduação e em se tornarem cientistas ou pesquisadores em tecnologia. Irão trabalhar nas empresas, de modo que irão contribuir para que a ciência e a tecnologia sejam fatores de desenvolvimento econômico do Brasil – que é o nosso grande desafio atual.

– Outros déficits do país são aqueles que fazem uma sociedade de informação. No Brasil, há polos de tecnologia plena e largos espaços onde o mesmo não acontece.  A formulação de políticas de tecnologia da informação e comunicação (TIC) para o país tem considerado a comunidade científica no diálogo e no potencial de estudos que podem ser desenvolvidos para subsidiá-las?

O Brasil é um país bem sucedido em termos desenvolvimento de Tecnologia da Informação, levando em conta as suas características. Com frequência ouvimos comentários que comparam o Brasil com outros países. Já ouvi comparações do Brasil com a Finlândia – “A Finlândia tem 99% de inclusão digital…” -, com a Coreia – “Coreia do Sul tem mais de 90% de inclusão digital…” -, enquanto o Brasil só tem 70%. Agora, 70% num país com 193 milhões de habitantes e com a nossa enorme extensão territorial é um feito muito grande. A área da Coreia do Sul corresponde à área de Pernambuco, a Finlândia tem uma área maior, mas tem uma população de 4 milhões e meio de habitantes. Estas comparações não fazem o menor sentido para avaliar o patamar de desenvolvimento da Tecnologia da Informação no país.

O governo do presidente Lula e da presidente Dilma tem um programa de inclusão digital de todas as escolas públicas do Brasil, que tem sido bem sucedido e que cresce nas escolas públicas brasileiras em ritmo bastante acelerado. Dá acesso à internet – em alguns lugares com boa velocidade, em outros com menos -, complementados por programas estaduais que instalam computadores nas escolas e distribuem laptops entre os seus melhores alunos e os professores. É claro que seria ótimo o país ter 100% de inclusão digital, mas o Brasil é um país grande e complexo.

As políticas de tecnologia da informação tem se beneficiado muito do fato do Ministério de Ciência e Tecnologia, ainda na década de 1990, ter implantado uma secretaria exclusiva para esta área: a Secretaria de Política de Informática. O Ministério tem quatro secretarias: três delas só trabalham em áreas horizontais, com programas em muitas áreas; só tem uma secretaria voltada para uma área específica, exatamente a Secretaria de Política de Informática. Esta secretaria tem comitês de gestores, de tal maneira que há uma grande participação da comunidade de informática, da Sociedade Brasileira de Computação, e a política de informática tem feito que o Brasil tenha hoje grande parte dos equipamentos de informática sendo fabricados no país, por conta da lei de informática. São empresas estrangeiras, mas que montaram suas fábricas aqui.

A comunidade científica ajuda na formulação das políticas de informática, está presente através do comitê gestor de informática, através de comissões diversas que a secretaria organiza. Posso dizer que há políticas que só foram possíveis em função da participação da comunidade científica. O número de programas de informática do Brasil cresceu muito nos últimos tempos e a informática é a área na qual existe o maior número de novas empresas brasileiras criadas por nossos pesquisadores e técnicos, muitas delas bem sucedidas, inclusive com operações importantes no exterior.

– Baseado na sua experiência e compreensão, poderia nos dizer quais são os novos patamares que a ciência brasileira pode alcançar?

O Brasil tem hoje aproximadamente 90.000 pessoas com doutorado trabalhando em ciência e tecnologia, tem aproximadamente 70.000 pessoas com mestrado, somando aproximadamente 160.000 pesquisadores trabalhando em ciência e tecnologia hoje. Bastante aquém dos países que vivem uma economia do conhecimento – por exemplo, Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Japão.  Nesses países. muitas vezes o número de pesquisadores chega a 0,2% da população, enquanto no Brasil fica em torno de 0,08%.  Aproximar-se destes países é um grande desafio, mas é um desafio que está sendo enfrentado. O Brasil está formando aproximadamente 14.000 doutores por ano e aproximadamente 40.000 mestres.

Os recursos para ciência e tecnologia cresceram muito na última década, mas pararam de crescer nos últimos dois anos, aliás diminuíram um pouco. Para que estas pessoas trabalhem com ciência e tecnologia é preciso que os recursos continuem crescendo. O Brasil precisa retomar o crescimento do orçamento para ciência e tecnologia para que seja formado mais pessoal e sejam financiadas as atividades desenvolvidas. E o investimento precisa ser de todos os setores: governo federal, governo estadual e empresas. O investimento total destes três setores em pesquisa e desenvolvimento no Brasil hoje não chega a 1,2% do PIB brasileiro, enquanto nos países de economia do conhecimento este investimento está em torno de 2% e 3% de seus PIBs.

Na década de 1970, a Coreia do Sul era menos desenvolvida que o Brasil, mas tinha uma política de ciência e tecnologia. Enviou gente para estudar no exterior, realizou uma política industrial articulada com a política científica, o que fez com o que o padrão inteiro da Coreia aumentasse. A renda per capita deles atualmente é o dobro da brasileira. Guardadas as devidas proporções, o exemplo é válido.

Se o Brasil continuar formando pessoal, aumentando recursos, financiando pesquisas, aumentando a participação das empresas neste processo, seguiremos no rumo do desenvolvimento. A economia do conhecimento, ela não só enriquece o país, ela faz com que o país inteiro se desenvolva. O Brasil está em um processo acelerado de mudança, é preciso mantê-lo e mantê-lo por muito tempo para que gere as mudanças desejadas, para que leve aos novos patamares. [Leia mais na Academia Brasileira de Ciências ou no Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais do MCTI]

– Se as cotas sociais já seriam suficiente para resolver a questão das cotas raciais, isso é outra discussão. Mas não podemos negar que este país é miscigenado nas ruas e nas praias, por exemplo, mas branco nas repartições, nos consultórios médicos, de advocacia e nas universidades.

Débora Foguel,

Pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa da UFRJ

O ensino superior brasileiro, uma das forças motrizes do desenvolvimento do país, teve um avanço expressivo na primeira década deste século. Dados do Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o percentual de brasileiros com nível superior completo passou de 4,4%, em 2000, para 7,9%, em 2010, o que representa a passagem de 6,1 milhões para 12,8 milhões de brasileiros detentores de um diploma universitário. Esses dados também sinalizam prosperidade socioeconômica: afinal, mais conhecimento para o brasileiro significa mais conhecimento para o Brasil, sobretudo se for acompanhado da abertura de postos de trabalho, acarretando o aumento da produtividade e do poder aquisitivo.

No entanto, para que este avanço seja bem compreendido há muito mais a se considerar. Convém avaliar o que a carreira docente oferece em termos de remuneração, formação continuada e atividade de pesquisa aos professores; identificar a infraestrutura das salas de aula, laboratórios, centros de pesquisa e demais espaços das universidades; e analisar qual o nível de aprendizado de quem ingressa e de quem sai das universidades para o mercado de trabalho ou para prosseguir nas atividades de pesquisa e na carreira acadêmica. Só assim será possível entender por que persiste a evasão de estudantes e professores e também por que o número de pesquisadores aumenta lentamente, caso seja considerado o potencial de 193 milhões de brasileiros ou, ao menos, os 12,8 milhões que conquistaram um diploma universitário na última década.

Na entrevista a seguir, Debora Foguel, pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa da UFRJ, comentou políticas públicas para o ensino superior, modelos de universidade e a carreira docente universitária brasileira, ponderando os impactos sociais resultantes de cada tema.

– Ampliar o acesso ao ensino superior e aumentar a qualidade do ensino são dois grandes desafios que a universidade brasileira enfrenta hoje. A superação destes desafios pode ser alcançada com a estrutura atual da universidade brasileira?

Debora Foguel A questão do acesso ao ensino superior é uma das questões mais relevantes para a construção do Brasil do futuro que todos nós almejamos. Para esse país do futuro que, em última instância, é o país que queremos já, no presente, precisamos, indiscutivelmente, de muita gente formada, graduada e pós-graduada. O Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) lançado pelo governo Lula, apesar de muito criticado, foi, a meu ver, um marco na história do ensino superior no Brasil. Este programa forneceu as condições financeiras e políticas para que a universidade pública criasse novas vagas, criasse novos cursos, criasse novos campi. Não podemos negar que o REUNI forçou a todos a travar uma discussão interna e necessária, inicialmente centrada nos nossos cursos de graduação, nas metodologias de ensino, grades de disciplinas e etc., mas acabou transbordando para o sistema de acesso às universidades que resultou no fim do modelo antigo do vestibular. Este programa representou, a meu ver, uma verdadeira revolução nas nossas universidades federais.

Certamente, a expansão foi feita tendo como ator principal uma universidade que estava sucateada, com salas de aulas e laboratórios precários, infraestrutura predial deteriorada e sem concursos há vários anos, devido a décadas de poucos investimentos. Mesmo assim, não sem embates internos difíceis, as universidades federais atenderam ao apelo do governo por acreditarem ser este programa necessário como um primeiro passo no sentido de aumentar a porcentagem de jovens nos bancos universitários. E os recursos e as vagas docentes e de técnico-administrativos para sustentar essa expansão chegaram e, hoje, não podemos negar que o cenário nas universidades é outro, em qualquer campus universitário que se visite. O caminho ainda é longo, mas saímos do lugar de estagnação onde estávamos. E, dessa forma, com o Reuni e, agora, com o Enem, a universidade pública brasileira vem se transformando, como há muito não acontecia.

– Nos últimos anos foram implementadas políticas públicas para a universalização do ensino superior no país, com destaque para a assistência de crédito estudantil, cotas raciais, intercâmbio, entre outras. Entre elas, a que causou maior repercussão na sociedade foi a introdução de cotas nas universidades. Qual a sua avaliação dessa política para ensino superior brasileiro?

No que tange a política de cotas, foram muitos os debates que presenciei e as opiniões sobre essa política são divergentes entre os acadêmicos. Como experimentalista, antes de formar minha opinião, não poderia me furtar a olhar dados, dados de universidades que já praticam as cotas há algum tempo, como a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), por exemplo.  Esses dados têm mostrado, até onde eu pude acompanhar, que a qualidade do ensino universitário não foi afetada pela chegada dos alunos cotistas. Os dados mostram também que a taxa de evasão, outro mito em torno das cotas, também não tem sido maior entre os cotistas. Alguns dados até mostram o contrário! E, curiosamente, um estudo realizado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) mostra que os alunos cotistas negros não se sentem discriminados pelos seus professores, nem pelos seus colegas, nem pelos funcionários e técnicos da universidade onde estudam, outro mito que ronda o tema, no caso das cotas raciais.

Baseado nesse conjunto de observações, mas, também, naquilo em que acredito enquanto pessoa, professora e acadêmica brasileira, sou favorável às cotas! Se as cotas sociais já seriam suficientes para resolver a questão das cotas raciais, isso é outra discussão. Mas, não podemos negar que este país é miscigenado nas ruas e nas praias, por exemplo, mas branco nas repartições, nos consultórios médicos e de advocacia, nas universidades. Mas, considero que determinar uma fração das cotas para os negros traz em si um resgate, um compromisso e uma carga de simbolismo. Eu, particularmente, gostaria de poder ver os cidadãos brasileiros e meus filhos, que são universitários, participando dessa experiência como parte de sua formação como cidadãos do mundo.

Certamente, nosso problema maior e que nos leva à necessidade da adoção de tal medida reside na baixa qualidade do ensino básico ofertado na maioria das escolas públicas ou mesmo em algumas escolas particulares brasileiras. Nós das universidades não podemos descansar enquanto essa questão não for equacionada e isso levará décadas… Até lá, quantas mais gerações de jovens de baixa renda ou negros ficarão aguardando a solução desse problema crônico e de difícil solução? As cotas vêm para fazer com que atravessemos esse longo período enquanto as coisas não se arrumam na educação básica brasileira dando oportunidade para essa geração de jovens que cá está e longe da universidade.  E os dados do último Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) também mostraram que os alunos cotistas não obtiveram pontuação tão distinta dos não cotistas. Penso que a missão das universidades brasileiras é plural, múltipla e traz enormes desafios.

– Um modelo de universidade de grande aceitação junto a comunidade científica é a universidade de excelência. Se o que faz uma universidade de excelência for realização de pesquisa de ponta, as primeiras universidades de excelência brasileiras seriam a USP, UFRJ e Unicamp, todas na região sudeste. Para o ensino superior, a melhor estratégia é ampliar os recursos públicos nestas universidades, para que elas se estabeleçam internacionalmente, ou captar recursos privados junto às empresas instaladas ao redor delas, para que os recursos públicos ajudem a expansão das demais universidades existentes no país reduzindo a diferenças regionais?

As universidades de excelência ou de classe mundial precisam de um conjunto de medidas e ações coordenadas, firmes e de longo alcance, tanto por parte de seus gestores quanto do governo, para que elas se estabeleçam e prosperem. Nelas, o componente da pesquisa é muito forte e, para tal, o aporte de recursos deve ser muito expressivo, a infraestrutura e o parque de equipamentos precisam ser cuidados, adequados e modernos, a governança e a gestão devem ser favoráveis, facilitando a vida do professor-pesquisador. E a questão da liberdade de cátedra, da regulamentação e leis do país onde elas se encontram deveriam tramar a seu favor, para que tudo caminhe a contento.

Penso que ainda temos muito chão a caminhar no Brasil, principalmente no que concerne às universidades federais, para chegarmos aos níveis de excelência vistos em outras grandes universidades mundo afora. Dessa forma, penso que a resposta é sim para ambas as perguntas, ou seja, é importante que recursos do setor privado sejam captados para que essas universidades mencionadas se estabeleçam internacionalmente, mas, também, e de forma mais necessária, ainda se faz importante que os governos, estadual e federal, as financiem.

As universidades de excelência precisam ter aporte de recursos para financiar editais de pesquisa internos, para o desenvolvimento de suas competências e dos seus grupos de excelência de forma programada, atrelada a um programa de desenvolvimento institucional. Não tenho conhecimento de universidades federais que possuam recursos para promover editais internos de pesquisa (com valores expressivos) ou que possam investir recursos na modernização de seus laboratórios e equipamentos de forma sistemática e eficiente. Ainda dependemos da conquista individual por parte dos pesquisadores por auxílios à pesquisa sem uma participação estratégica da universidade. Como a pesquisa é uma atividade que demanda muitos recursos e de forma perene, o envolvimento do setor privado é necessário para ajudar a nutrir esse sistema, de preferência de forma colaborativa, onde os pesquisadores da universidade interagem com a empresa buscando avanços tecnológicos para a nação.

Mas, não podemos nos iludir, a fração maior de investimentos em pesquisa em universidades de classe mundial vem de recursos públicos. Por outro lado, uma universidade de excelência é extremamente cara. E, por isso, os diversos países, mesmo os mais ricos, escolhem um subconjunto de suas universidades para dar a elas o status de excelência. Mesmo a China e a Índia também tomaram essa decisão. Precisaremos pensar coletivamente nessa questão no devido momento, criando uma solução que se adeque ao cenário brasileiro, onde temos o grande conjunto de universidades ainda muito jovem, outras recém-criadas, onde ainda existem regiões desatendidas neste país continental e onde a participação das empresas se conta nos dedos. [Leia mais na Academia Brasileira de Ciências]

– O chineses já apontam as universidades que estão destinadas a serem as Harvards e os MITS da China. Precisamos ousar mais. Não basta andar para frente. Temos que caminhar com a mesma velocidade ou mais rapidamente que outros países emergentes, reduzindo as desigualdades sociais, garantindo uma educação de qualidade para todos e promovendo a excelência na ciência e na inovação.

Luiz Davidovich,

Presidente da Academia Brasileira de Ciências

Dados do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) apontam para o aumento de pessoal, recursos e de produção nos últimos anos, atestando o progresso da ciência brasileira. No entanto, esses dados devem ser acompanhados das opiniões de quem está nos laboratórios, centros de pesquisas e tecnologia e nas universidades de todo o país para que a celebração aconteça sem impedir os ajustes necessários para que este progresso se intensifique.

A leitura destes dados foi feita pelo Acadêmico e presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich, professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na entrevista a seguir.

– Qual é o estágio atual da ciência no Brasil?

Luiz Davidovich – Considerando que as primeiras universidades brasileiras foram fundadas apenas no século XX, a ciência brasileira teve no século passado e na primeira década do século XXI um desenvolvimento notável, o que pode ser medido pelo aumento do número e da diversidade dos grupos de pesquisa, pelo crescimento do número de artigos publicados em boas revistas, pelo fortalecimento das pós-graduações e pelo aumento do número de doutores em nossas universidades. O  CNPq, a Capes e as fundações estaduais de apoio à pesquisa tiveram um papel fundamental. Deve-se destacar também o apoio institucional da Finep, que ajudou a fortalecer a pesquisa nas universidades brasileiras. Precisamos pensar agora, no entanto, nos obstáculos a serem superados para que possamos alcançar um novo patamar, comparável ao das nações mais desenvolvidas e perseguido também por países como a China e a Índia. Estamos fazendo boa ciência, mas não conseguimos ainda pautar, internacionalmente, as grandes linhas da ciência e da inovação tecnológica, salvo as honrosas exceções, frequentemente mencionadas, como a Embrapa e a Petrobras.

Para isso, precisamos cuidar da melhoria da educação em todos os níveis, da aprendizagem infantil e da educação básica ao ensino superior, de modo a fazer bom uso de nossa grande população, agregando mais gente qualificada a esse esforço. Prestigiar os professores da educação básica, de modo que essa profissão possa atrair bons estudantes, deve ser uma prioridade nacional. Por outro lado, a dupla missão de nosso ensino superior, de buscar a excelência na ciência, na tecnologia e na formação de profissionais qualificados, e ao mesmo tempo ajudar a promover a inclusão social, demanda uma reformulação das instituições de ensino superior, promovendo sua diversificação e reformando seus programas. Deve ser mencionado como grande obstáculo, neste momento, a carreira docente recentemente aprovada pelo Congresso Nacional, um sério retrocesso para as universidades federais.

Para alcançar esse desejado patamar, devemos também aumentar o investimento em áreas de fronteira em ciência e tecnologia, pois uma não caminha sem a outra. Em particular, devemos procurar estar na vanguarda internacional em tecnologias portadoras de futuro, como as tecnologias de informação, a nanotecnologia, a biotecnologia e energias renováveis. Grandes projetos em áreas específicas devem ser apoiados, tendo em vista seu potencial científico e tecnológico. Deve-se também levar em conta as oportunidades  oferecidas pela nossa diversidade regional. A Amazônia, por exemplo, é um grande tesouro que guardamos em nosso país, à espera de inovações tecnológicas que permitam explorar seu imenso potencial, mantendo a floresta em pé. E é necessário também aumentar substancialmente a atividade de pesquisa e desenvolvimento das empresas estabelecidas no país:  essa é a atividade que fará a diferença, nas próximas décadas, entre países de primeiro e segunda divisão…

– Quanto a ciência está presente na vida do país?

A ciência está presente em áreas fundamentais para o desenvolvimento do país. Na produção de alimentos, através do trabalho fantástico da Embrapa, coordenado com o de diversas instituições de ensino superior. Na extração de petróleo, beneficiando-se da tecnologia sofisticada desenvolvida pela Petrobras, em conjunto com uma rede de pesquisas que inclui institutos e universidades em várias regiões do país. Em diversos desenvolvimentos na área de saúde, da produção de vacinas a pesquisas com células tronco. Em desenvolvimentos na área de tecnologia de informação. Em procedimentos cada vez mais sofisticados tecnologicamente de validação de produtos, conduzidos pelo Inmetro. Nas atividades de vários laboratórios situados em universidades e institutos de pesquisa, como o Laboratório Nacional de Luz Sincrotron, que colaboram com diversas empresas no aperfeiçoamento de produtos e processos tecnológicos.

Mas a consciência social da importância da ciência é ainda reduzida. Atividades como a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia ajudam a promover o interesse pela ciência na sociedade. Programas de educação em ciências, como o Mão na Massa, da Academia Brasileira de Ciências, ajudam a melhorar a formação de professores do ensino básico. No entanto, a presença da ciência na imprensa brasileira ainda deixa a desejar, se compararmos com o que ocorre em outros países. E o apoio governamental sofre ainda grandes oscilações que prejudicam a pesquisa, enquanto a burocracia continua sendo o grande desafio, que sobrevive às várias tentativas de enfrentá-lo.

Quanto ao empresariado, cresce a atividade de pesquisa e desenvolvimento nas empresas, mas estamos ainda muito longe do nível alcançado por países do chamado primeiro mundo. Reuniões regionais entre a academia e empresas têm sido organizadas pela ABC. Isso ajuda a mapear os desafios no setor, mas a conquista de novos patamares requer uma grande mobilização, incentivando o investimento de risco e envolvendo também o setor educacional, pois é necessário mudar entraves culturais, estimulando a criatividade, a invenção e o empreendedorismo.

– Como são os novos patamares que a ciência brasileira quer alcançar?

Nessa trajetória, os piores inimigos são a timidez e a modéstia. Devemos almejar ter nossas universidades entre as melhores do mundo, pautar internacionalmente, através de nossas instituições de pesquisa e empresas, linhas importantes da ciência e da inovação tecnológica, e criar, com a ajuda da ciência e da tecnologia, um ambiente de desenvolvimento sustentável, que leve em conta a riqueza de nossa diversidade regional e respeite a natureza e os seres humanos.

Países como os Estados Unidos, a China, a Coreia do Sul e a Índia procuram ocupar espaços, em meio à crise econômica global, através do aumento do investimento na ciência e na inovação. Programas bilionários em biotecnologia e nanociências estão sendo promovidos nos Estados Unidos, na Europa e na China. Em março do ano passado, o primeiro ministro da China anunciou, diante do Congresso do Povo, que a taxa de crescimento do PIB chinês seria reduzida. No mesmo discurso, anunciou um aumento de 26% no investimento em ciência básica. Os chineses já apontam as universidades que estão destinadas a serem as Harvards e os MITs da China. Precisamos ousar mais, não basta andar para a frente, temos que caminhar com a mesma velocidade  ou mais rapidamente que os outros países emergentes, reduzindo a desigualdade social, garantindo uma educação de qualidade para todos e promovendo a excelência na ciência e na inovação. [Leia mais na Academia Brasileira de Ciências e no Jornal da Ciência, órgão da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]

– Os recursos naturais brasileiros trazem benefícios, mas também trazem responsabilidades. É fundamental essa biodiversidade seja utilizada de uma forma não predatória, mas que, ao mesmo tempo, transforme esta riqueza natural em bens para a sociedade, em riqueza que permita a melhoria de vida da população.

Carlos Alberto Aragão,

Diretor-presidente do Centro Nacional de Pesquisa e Estudos em Materiais

A Academia Brasileira de Ciências entende que novos patamares de desenvolvimento científico e tecnológico não podem ser alcançados somente com esforços individuais ou de forma isolada, pois dependem da participação de diversos setores envolvidos na vida produtiva do país. E acredita que a aliança entre a comunidade científica e o empresariado seja fundamental para o crescimento econômico e da competitividade do país em um mundo globalizado.

Por séculos o Brasil participou da economia global como coadjuvante, exportando matérias primas, exaurindo os recursos naturais disponíveis em seu território, e commodities, subtraindo o valor de sua produção. Nas últimas décadas, este quadro está se modificando, sendo que a parceria entre a academia e as empresas tem contribuído significativamente para esta mudança. Para as empresas, essa parceria tem agregado valor à produção, gerado novos produtos e encontrado soluções inovadoras, enquanto para a academia tem fomentado pesquisas, criado novos postos de trabalho e auxiliado a internacionalização da ciência brasileira. Esta parceria também tem sido importante para o desenvolvimento econômico sustentável que o Brasil e o mundo necessitam.

Mas, se a base desta parceria for avaliada pelo volume de investimento em pesquisa e desenvolvimento no país, a verdade é que ela poderia ser maior. O Brasil tem investido cerca de 1% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em P&D, parcela insuficiente se comparada ao investimento de países desenvolvidos, como Japão e Estados Unidos, que investem 3,4% e 2,7% do PIB, respectivamente.

Na entrevista a seguir, o Acadêmico Carlos Alberto Aragão explica a importância da academia e as empresas trabalharem juntas para o progresso econômico, para o conhecimento científico e para a sustentabilidade do planeta.

– Um indicador bastante utilizado para calcular o desenvolvimento econômico dos países é o investimento de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento. No Brasil, este investimento não está à altura da importância que ele tem num cenário de competitividade global. A que atribuir este baixo investimento?

Carlos Aragão – Efetivamente, o que o Brasil aplica de seu percentual do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento está bem aquém do aplicam países como Japão, Estados Unidos e Alemanha, por exemplo. De certa forma, isto tem origens históricas. A ciência brasileira e, digamos, a tecnologia brasileira, são recentes se comparadas com aos outros países. O Brasil teve o seu primeiro órgão nacional de fomento à pesquisa, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), fundado em 1951. A primeira universidade a ter um papel importante em relação à pesquisa no país, a Universidade de São Paulo (USP), foi fundada em 1934.

O Brasil fez um grande esforço durante os últimos 60 anos para apoiar ciência e tecnologia e agora também começa a buscar a inovação. Ou seja, fazer com que as atividades de acabem por se traduzirem em novos produtos, em novos processos, em novos serviços, que venham a passar pelo crivo da sociedade, porque uma inovação só se consagra como tal com o uso, quando bem utilizada.  Creio que esta trajetória recente pode ser uma explicação para o fato dos investimentos em P&D no Brasil ainda serem baixos, se comparados aos países desenvolvidos em geral, que possuem uma tradição de C&T maior do que a brasileira, além de uma realização maior de atividades de inovação que envolvam empresas de base tecnológica.

– Qual a importância do investimento em P&D para a prosperidade econômica brasileira no mercado global?

O Brasil tem muitos exemplos sobre a importância de aumentar os recursos em P&D, seja para agregar valor ao produto que comercializava tradicionalmente a preços baixos ou para criar tecnologia de ponta, necessária para a exploração dos seus próprios recursos. Na área de petróleo, de prospecção em águas profundas, foi investimento em pesquisa e desenvolvimento, envolvendo empresas, universidades, centros de pesquisa, institutos tecnológicos, que formou a mão de obra qualificada e tecnologia necessária para este fim. Na agricultura, o sucesso do Brasil está baseado em C&T, como prova o fato da taxa de produção agrícola ser muito superior a de ocupação de terras, além dos produtos gerados – como o etanol, combustível alternativo, renovável, reconhecido internacionalmente. Temos uma indústria aérea de qualidade, que aspira à liderança mundial.

As bases desses casos de sucesso estão no final da década de 1960, início de 1970, com os esforços do Brasil para criar pós-graduações, enviando pesquisadores para o exterior, que, retornando compuseram os quadros das pós-graduações brasileiras. Com esses esforços unidos a uma política de estado eficaz e a boas políticas públicas, criou-se uma riqueza intelectual que gerou e gera soluções que resultam no aumento do desenvolvimento econômico que verificamos nos últimos anos e indicam que, para o país continuar se desenvolvendo, a solução é investir mais. O país precisa de mais ciência, mais tecnologia, mais inovação. É necessário ampliar a base de empresas que investem em pesquisa e desenvolvimento e aproveitar mais os recursos de ciência e tecnologia existentes, de forma a transformar a produção, diferenciando-a no mercado global. O Brasil já atingiu certo patamar, criou estruturas que permitem formar pessoal qualificado, de acordo com padrões internacionais, e tem de ir além, em busca de uma internacionalização que aproveite integralmente esta força de trabalho tão qualificada de que dispomos.

– Os benefícios da parceria entre a academia e as empresas costumam ser pautados em investimento de recursos para a pesquisa ou em valor agregado ao produto. Mas, sendo esta uma parceria para o conhecimento, ela deve trazer outros benefícios…

Para falar de benefícios da parceria academia e empresa para ambas as partes, tomo como o exemplo o Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), do qual sou diretor, e que agrega o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) e Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano). Esses quatro laboratórios se beneficiam enormemente da interação com empresas, porque nas etapas de produção surgem problemas que o cientista não enfrentaria de outra maneira, problemas relativos à tecnologia ou à ciência básica. Esses problemas fazem os pesquisadores recuarem até a ciência básica para fazerem avançar a tecnologia. Poderia oferecer exemplos sobre a interação que existe no CNPEM com empresas na área química, cosméticos, petróleo e gás, mineração, que instigam os pesquisadores através de desafios interessantes, que só poderão ser resolvidos com inovação.

Para a empresa, está assegurado o aprimoramento dos seus produtos, o que é fundamental para se diferenciar no mercado. A interação de universidades com empresas é realidade incontornável, todo mundo precisa somar esforços para aumentar esta interação, para que empresas no Brasil contratem, tenham um quadro efetivo de pesquisadores para o seu desenvolvimento, assim como as universidades precisam criar espaços de parceria para que esta interação seja constante. Até porque ela significa mais postos de trabalho para os pesquisadores, uma oferta de melhores produtos para os consumidores e produção inovadora e otimizada para as empresas.

Por isso, um benefício da convivência com empresas para os cientistas é o surgimento de problemas, de questões, de desafios que aguardam soluções que apenas eles, com os seus conhecimentos, podem alcançar. As empresas se deparam com gargalos tecnológicos que as impedem de avançar. Para superá-los, a ajuda dos cientistas é inestimável. E tudo o que os cientistas mais desejam é ter um bom problemas nas mãos. A empresa precisa de resultados concretos, de agregação de valor aos seus produtos, assim como a academia tem interesse em processos inovadores, que levem ao desenvolvimento científico. Mas se esta parceria fosse pautada apenas em recursos financeiros, os cientistas estariam prestando serviço somente, mas há algo a mais, e esse algo a mais são as questões, os desafios suscitados pelas demandas dos produtos, das empresas. Um telefone celular, com a infinidade de recursos dentro de um pequeno aparelho, reflete isso. Talvez o consumidor não saiba, mas ele é produto de aproximadamente cem anos de progresso científico. O nome ‘inovação’ traz em si o novo. E o ‘novo’ da inovação, este ingrediente mágico, na opinião dos empresários só acontece “pensando fora da caixa”, uma expressão que eles costumam usar. E isso é algo inerente aos cientistas, a produção do conhecimento, a inovação, o avanço da ciência como um todo que acontece fora da caixa.

– Além da prosperidade econômica e da produção do conhecimento, outro aspecto fundamental para a presença da ciência nas empresas é a orientação para um desenvolvimento sustentável. Isto também justifica a aplicação e o investimento do conhecimento científico na produção de empresas e indústrias?

A agenda da sustentabilidade é incontornável, porque os recursos do planeta são finitos. Fontes de energia, água, poluição, gases de efeito estufa e outros desafios para a ciência compõem esta agenda, que também é das empresas, que precisam aprender a produzir de forma menos agressiva ao planeta. Não há como escapar e apenas a ciência pode ajudar nisto, através da formulação de novas tecnologias, tecnologias limpas, que não apenas preservem os recursos ambientais, mas que saibam utilizá-los de maneira eficiente.

Qualquer intervenção humana na natureza terá efeitos e a presença do cientista nas empresas pode auxiliar no aumento de produtividade com cuidado ambiental. E a agenda da sustentabilidade passa por ciência e tecnologia, por isso é preciso utilizar todo o conhecimento disponível. Com enfoque científico para este tipo de questão, as empresas, as indústrias demonstram considerar a sociedade, o ambiente e a economia. A proliferação de parques tecnológicos e de centros de pesquisa também sugere que o desenvolvimento não será predatório a longo prazo. A capacidade de prever impactos que a ciência oferece é absolutamente necessária para o conhecimento dos cenários futuros que estão sendo construídos, caso sejam utilizados ou não meios sustentáveis de produção. A ciência sempre foi uma alternativa, mas num contexto de alta competitividade entre países, de desenvolvimento tecnológico crescente, mas com recursos naturais cada vez mais escassos, a ciência se transforma em um fator otimização da produção a ser considerado em toda cadeia produtiva.

Os recursos naturais brasileiros trazem benefícios, mas também trazem responsabilidades. O país possui uma biodiversidade fantástica, uma das maiores do planeta, por isso é fundamental ter um programa nacional que utilize esta biodiversidade de uma forma não predatória, mas que, ao mesmo tempo, transforme esta riqueza natural em bens para a sociedade, em riqueza que permita a melhoria das condições de vida da população. E essa é uma tarefa para todos os países. A esperança é que a busca por uma otimização elaborada cientificamente seja levada em conta para o desenvolvimento sustentável, seja na produção industrial, na formulação de políticas públicas ou na constituição de uma agenda comum a todos os países. Os métodos e as ferramentas do conhecimento um dia acabarão por se estabelecer, por avançar e o mundo efetivamente será melhor planejado, discutido de uma forma mais racional, e os seus recursos serão utilizados de maneira mais otimizada, para que nós superemos condições que no século 21 são vergonhosas – como o fato de 1/5 da população mundial viver em situação de miséria. [Leia mais na Academia Brasileira de Ciências e no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil]